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sexta-feira, 10 de julho de 2009

PLANALTINA - UNIÃO EM TORNO DO VALOR DA MEMÓRIA


(Rodolfo Borges)
Fotos: Rafael Ohana/CB/D.A Press

Grupo de moradores se organiza para defender o centro histórico e tenta conscientizar vizinhos dos benefícios de preservar o patrimônio da cidade



Um grupo de pessoas com projetos diferentes, mas com o mesmo objetivo de preservar a história. É assim que Simone Macedo define a Associação dos amigos do centro histórico de Planaltina, fundada e presidida por ela desde 2007. Depois que parte da estrutura da Igreja São Sebastião foi depredada, há dois anos, alguns moradores da região perceberam que era preciso cuidar do patrimônio da cidade antes que fosse tarde demais. Hoje, o grupo, composto por mais de 50 pessoas, trabalha pelo tombamento do centro histórico e tenta conscientizar moradores e donos de casarões antigos sobre a importância da preservação.
Entre as principais estratégias do grupo está levar arte e cultura para dentro dos casarões. O Hotel Casarão, que existe desde 1962, já cedeu parte de sua estrutura para a construção de um Espaço das Letras, com biblioteca e atividades para jovens da região. “Tentamos fazer com que o proprietário se apaixone por seu casarão. Ele não deve encarar a preservação como obstáculo”, explica Simone.

Curso
Próximo ao hotel fica a sede da associação, também em um antigo casarão, que está sendo reformado e deve abrigar projetos de preservação — os Amigos do Centro Histórico pretendem criar um curso de educação patrimonial em parceria com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A Casa do Idoso é outro local preservado, mas o interior da residência onde morava dona Nigrinha, na Rua 13 de Maio, mostra o mal que o tempo vem fazendo a Planaltina. Estruturas de barro originais que davam sustentação à casa estão expostas no interior do terreno e a casa mal se sustenta em pé.
O centro histórico de Planaltina fica ao redor da Praça Salviano Guimarães, no quadrilátero localizado entre as ruas Sergipe, 13 de Maio, 1º de Junho e Hugo Lobo. São dezenas de antigos casarões, que deram lugar a casas depois do parcelamento e venda dos outrora extensos terrenos. Mas ainda restam estruturas originais ao redor da praça, como a fachada do Casarão Azul, uma das mais bonitas e menos preservadas da cidade. A associação já fez um orçamento para a restauração e negocia a obra com o proprietário, que não mora na casa. 
Também está nos planos dos Amigos do Centro Histórico construir um corredor cultural na rua do Casarão Azul e restringir o trânsito de carga pesada pelo centro histórico. “A passagem de ônibus e caminhões danifica a estrutura das casas, que já estão muito fragilizadas”, diz José Rui Lima Jorge, um dos diretores da associação. Na cidade, apenas a Igreja São Sebastião e o Museu Artístico e Histórico de Planaltina são protegidos pelo patrimônio histórico. Os casarões que restaram são preservados graças a um acordo de cavalheiros.
Para ajudar na conservação da cidade, o professor e amigo do centro histórico Flávio Pau Pereira, 42, vem trabalhando o tema da preservação em sala de aula. “Meus alunos sabem o que é um pilão e um moedor. Apresento esses instumentos a eles e os levo aos monumentos históricos para que desenhem a igreja e o museu”, conta. Outro envolvido no trabalho é o professor de geografia Rafael Rodrigues Queiroz, 25. “Quem mora nessas casas não tem consciência da importância de preservar a história do local. Mas vamos trabalhar para mostrar que é possível”, resume.

1- DESRESPEITO
Em fevereiro de 2007, um mourão (pedaço de madeira utilizado para amarrar cavalos) do século 19 foi arrancado e utilizado para fazer duas pequenas fogueiras a 40 metros da porta da igreja. A peça já estava bem desgastada e, depois do ocorrido, foi substituída por uma réplica

2- HISTÓRIA ORAL
O Casarão Azul foi residência do primeiro médico de Planaltina, conhecido como dr. Osana, que teria usado a construção como hospital por algum tempo. A história do casarão é uma das muitas que os amigos do centro histórico tentam recuperar. Como são poucos os registros escritos, é preciso buscar relatos orais dos moradores mais velhos.

Para saber mais:
Igreja de São Sebastião nasceu com promessa
O local onde se encontra a Igreja de São Sebastião foi doado em 1811 pelas famílias Gomes Rabello e Carlos Alarcão. Na época, a região foi vítima de uma epidemia e as famílias prometeram ao santo que ergueriam uma capela em seu nome caso escapassem da doença. A capela foi construída inicialmente em adobe e palha e finalizada em 1870, mas a paróquia mesmo só surgiu 10 anos depois.
Tombada pelo Governo do Distrito Federal em 1982, a igreja foi restaurada em 1984 por meio de convênio entre a Administração Regional de Planaltina, Pró-Memória e a extinta Secretaria de Educação e Cultura do DF. Hoje, já apresenta rachaduras de cima a baixo em vários pontos. Uma das janelas não pode nem ser aberta, sob risco de cair, e o chão, que antes era de madeira, foi substituído por pedras.

Personagem da notícia
Casarão virou escolinha de futsal

É no casarão de dona Nigrinha que o técnico e professor de futsal Alécio Gomes (foto), 57 anos, toca sua escolinha há oito meses. São 250 jovens, de 4 a 18 anos, que recebem lições da modalidade e de cidadania de um técnico bicampeão brasileiro de futsal (feminino, em 1996, e masculino, em 1998). “A casa pertencia a Zé Baiano, que trabalhava com madeira como ninguém, e dona Nigrinha. Depois, passou para uma filha de criação”, lembra Gomes, que estabeleceu como meta extrair talentos esportivos de Planaltina.
Jogador profissional por 12 anos, ele foi o primeiro professor de futebol de vários jogadores de expressão em nível nacional, inclusive do zagueiro Lúcio, capitão da Seleção Brasileira de futebol. “Mas eu não gosto de falar sobre isso, para as pessoas não acharam que quero aproveitar o sucesso dos outros”, diz. Toda segunda, quarta e sexta-feira, o professor leva os alunos das 8h às 11h30 e das14h às 17h30 para a quadra poliesportiva da Praça São Sebastião

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

O INVENTÁRIO DO TEMPO

Márcia Néri, da equipe do Correio Braziliense)

Fotos: Cadu Gomes/CB
O INVENTÁRIO DO TEMPO
(Márcia Néri, da equipe do Correio Braziliense)

Quem passa pelo antigo centro de Planaltina dificilmente deixa de notar um simpático casarão construído no século 19 em estilo colonial que fica em frente à Praça Salviano Monteiro. E quem tem a curiosidade de entrar logo descobre que se trata do Museu Histórico e Cultural da cidade, recuperado e entregue à população há pouco mais de um mês. O local guarda a história e preserva a tradição das pessoas que viveram na região, que até 1917 era conhecida como Vila Mestre D'Armas em homenagem a um armeiro que morava nas redondezas. No interior do casarão de janelas e portais azuis estão expostos móveis, fotos e peças usadas no cotidiano da tradicional família Guimarães, dona do imóvel até 1973. Relíquias como roteiros da Missão Cruls também podem ser apreciadas.

Os Guimarães eram influentes em Planaltina e tinham como tradição acolher comissões e caravanas que vinham ao Planalto Central para estudar aspectos geográficos, sociais e geológicos relativos a viabilidade da construção da nova capital do país. Alguns de seus integrantes eram políticos importantes na cidade. Eles moraram no casarão até 1973, quando Francisco Mundim Guimarães, prefeito várias vezes, e sua esposa, Maria América Guimarães, doaram o imóvel ao GDF. Descendentes que ainda moram em Planaltina dizem que a casa foi palco de reuniões dos pioneiros que tinham como desafio ajudar Juscelino Kubitschek a construir Brasília.

Originalidade
O resultado da reforma surpreende moradores antigos. Os restauradores usaram réplicas de telhas, do assoalho e do forro para deixar o casarão idêntico ao modelo original. A mobília e os pertences da tradicional família fazem parte do acervo que está exposto aos visitantes no Museu. Os bens que retratam o ambiente das antigas residências goianas estão em todos os cantos. Entre os objetos, um piano alemão de 1925, o primeiro trazido para Goiás. As curiosidades não param por aí. Em um dos quartos, o visitante se depara com uma antiga cadeira de dentista e alguns instrumentos usados por um membro pioneiro dos Guimarães, que era médico. Além disso, armários de madeira e mobiliário, como cadeiras e mesas, completam o ambiente do imóvel e ajudam a resguardar a história. Um relógio de parede de 1899, que parece ignorar o tempo, com os ponteiros parados, um porta-chapéus e uma cristaleira do século passado definem nos espaços amplos da casa, um certo clima de nostalgia. As relíquias ilustram um passado bem distante que contrasta com a realidade moderna e contemporânea de Brasília, a 38km, como se fosse a outra face da moeda arquitetônica da história.

A população de Planaltina não esconde o orgulho de ter o casarão preservado e tombado. Para o vendedor de doces, Geraldo Matias Leite, 61 anos, os moradores estavam tristes com o abandono e o descaso sofridos pelo patrimônio nos últimos anos. 'A situação era precária antes da reforma, o imóvel servia de abrigo para ratos, baratas e cupins. Nossa história estava desaparecendo, ruindo como as madeiras do assoalho antigo da casa', conta. O vendedor confessa estar aliviado e satisfeito porque seus netos poderão conhecer fatos relevantes e documentos que contam como Planaltina foi importante para a construção da nova capital. 'Se o patrimônio é cuidado, sempre teremos pessoas interessadas em aprender, conhecer mais a respeito dos fatos que aconteceram perto de Brasília. Notei que depois da restauração, as visitas ao local são constantes. Muita gente tem vindo prestigiar o museu', acrescenta.

Preservação
Mas, segundo alguns moradores, é preciso mais cuidado com as relíquias e objetos que estão no interior do casarão. Para eles, a preservação deve ir além da reforma do antigo casarão. Segundo a integrante da Associação dos Amigos do Centro Histórico de Planaltina, Simone Macedo, apesar do apoio do Departamento de Patrimônio Histórico e Artístico do Distrito Federal (Depha), é difícil preservar a história na região. Ela alega ser quase impossível promover o conhecimento e divulgar a cultura entre os que procuram o local porque as peças do espaço ainda não estão catalogadas. 'Precisamos de pessoas capacitadas para catalogar os objetos do Museu, que até hoje estão sem identificação. Não temos especialistas para acompanhar as visitas também, reivindica Simone. O diretor do Depha, José Carlos Coutinho, explica que o espaço passou por um longo período de reforma na estrutura física e que obras de complementação ainda serão providenciadas. 'Já recomendamos uma vistoria no acervo e um estudo museográfico para que as peças fiquem expostas de maneira correta e adequada. Planejamos também fixar nas dependências da casa um painel explicativo que conte a história tanto do casarão, quanto do restauro', afirma Coutinho.
Importância
Segundo ele, o imóvel é realmente um espaço importante para região da capital. 'Planaltina pode ser considerada um embrião de Brasília. Esse casarão guarda objetos e histórias que mudaram o rumo do país. Por isso, o museu merece toda a atenção', acrescenta. Além dos objetos já expostos atualmente, faz parte do acervo uma biblioteca cujos livros e documentos em breve voltarão para as dependências do Museu. 'Como o casarão faz parte do patrimônio tombado do Distrito Federal, é preciso planejamento e cuidados especiais. A intenção é torná-lo uma referência cultural na cidade. Estamos nos reunindo com a administração regional para tratar desses detalhes', garantiu o diretor do DePHA. O administrador de Planaltina, Aylton Gomes, afirma que parte do acervo ainda vai passar por restauração. 'Queremos incentivar os moradores mais antigos a doarem peças', afirmou ele. O Centro Histórico de Planaltina é tombado como Patrimônio Histórico do DF desde 1982. O decreto que instituiu a medida assegura a preservação do prédio e das áreas próximas e prevê penalidades para quem destruir, mutilar ou alterar suas características originais.