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domingo, 1 de abril de 2012

201 Anos do Arraial de São Sebastião de Mestre D'Armas

Vídeo realizado pela Comunicação Comunitária da UnB durante o evento "201 Anos do Arraial de São Sebastião de Mestre D'Armas".
Na oportunidade foi realizado o Seminário do Patrimônio Cultural de Planaltina  na Faculdade UnB Planaltina e atividades culturais na Igrejinha São Sebastião inclusive com o abraço simbólico para chamar a atenção quanto a necessidade de sua restauração.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Família de Viriato de Castro está em Brasília há mais de 200 anos


O avô e o pai ajudaram a alimentar o sonho da nova capital. E ele mora numa casa centenária onde o tempo não se apressa e se vive vagarosamente. "Não vim. Brasília é que veio", ele diz

Publicação: 15/05/2010 
 (Com a mulher, Maria Clementina, ele retoma o tempo:
Quando perguntam a Viriato de Castro, 73 anos, de onde veio, ele responde: “Não vim. Brasília é que veio”. O velho goiano de chapéu de feltro, veias em alto-relevo e pele tostada da peleja na lavoura está aqui há mais de 200 anos. Não ele propriamente dito, claro. Mas a sua origem, os seus descendentes, os mineiros que vieram para o sertão goiano atrás de terra primitiva, como eles chamavam as sucessivas e infindáveis chapadas devolutas onde mais tarde surgiria a nova capital.

Todo o rosto de Viriato é um sorriso quando ele é convocado a dizer se gosta de Brasília: “Tenho até que conhecer o mundo pra ver se tem uma igual, tão linda que é. Como é que alguém teve a ideia de fazer tudo isso? Aquelas tesourinhas, a largura das ruas, aquela Praça dos Três Poderes, aquilo ali é um trem muito valioso. Bonito demais”.

Brasília é uma miragem na memória de Viriato de Castro. Raramente, ele desce a serra até o Plano Piloto. Salvo algumas interrupções, passou a vida na fazenda ao lado da Lagoa Mestre d’Armas, vendo a Terra girar em torno do Sol e Brasília crescer ao redor da casa de adobe com uma cruz de madeira no frontispício. É uma construção que tem mais de 120 anos, pelos cálculos de Viriato. Há feridas no reboco, os caibros do telhado estão perigosamente corroídos, as telhas originais se encontram escurecidas, as janelas são de alumínio — mas as portas de madeira, compridas e largas, continuam soberbas — e o assoalho de tábua sem remendos nem deformações segue plácido e potente.

Velha casa
Quando Brasília estava chegando, Viriato preparava a mudança para a casa de duas janelas e porta-balcão. Em 1959, ele se casou com a mineira Maria Clementina, filha dos mais antigos moradores de Brazlândia. O casal se mudou para a casa, que já era quase centenária, e, para tanto, trocou o madeiramento do telhado. Foi a última grande reforma feita numa das mais antigas construções que ainda estão de pé no Distrito Federal.

A mudança para a casa velha, rodeada de monjolos, aconteceu dois anos depois de Planaltina começar a receber agitados visitantes. Eram os primeiros candangos que iam à cidade em busca de alimentos, ferramentas, remédios, utensílios domésticos. “A gente ouvia falar (na mudança da capital), mas não acreditava. O avô de Viriato, também Viriato de Castro, havia sido guia da Missão Cruls, no fim do século 19. O pai, Velusiano, ajudou a erguer a pedra fundamental de Brasília, em Planaltina, em 1922.

 (Zuleika de Souza/CB/D.A Press )
A tradição de participar da mudança da capital continuou em Viriato neto. Ele ajudou a construir o primeiro galpão da Novacap. “A madeira foi toda carregada nas costas. Era pau de pindaíba (retirado) lá daqueles brejos. Trabalhei em Brasília quando não tinha uma alvenaria assentada. Arrancava capim do brejo pra fazer colchão.” Depois, Viriato percebeu que havia modo mais inteligente de ganhar dinheiro: plantando o de comer. Descobriu que os cariocas gostavam de feijão-preto — variedade pouco conhecida entre os goianos. “Ganhei muito dinheiro com feijão-preto. A primeira coisa que comprei pra mim foi (com o lucro) do feijão-preto. Comprei meu primeiro carro de boi, com 12 bois”.

Enquanto Viriato desfilava com seu carro de boi pelas trilhas de Planaltina, tratores de esteira abriam o Eixão. “Aquelas máquinas enormes derrubando aquelas sucupiraiadas, aquele pauzeiro... A gente parava e admirava. Uma máquina arrancar um pau desses?!” Antes da chegada dos homens e das máquinas, a área onde o Plano Piloto foi feito era conhecida apenas por servir de passagem para quem ia pescar na cachoeira do Rio Paranoá. “Naquele tempo, a gente não sabia o nome piracema. A gente dizia que era o tempo de o peixe subir. O peixe subia e caía do lado, na terra. A gente fazia uma cerquinha e deixava. No dia seguinte, aquilo estava cheio de peixe.”

O tempo parou
O carro de boi continua na porta da casa centenária, o fogão a lenha segue cantando música crepitante, o chão do puxadinho da cozinha é de cimento vermelho, o gado come palha de milho e os gatinhos recém-nascidos estão enroscados no tapete de retalho. É de se perguntar, afinal, que mudanças Brasília trouxe para a vida de Viriato. “Muitas. Mudou tudo. De primeiro a gente morria de apendicite, de doencinha à toa. Mulher morria de parto. Meu tio ficou no sol, com três cobertores, tremendo de bater queixo, era maleita. Só de Goiânia ser a capital de Goiás (antes era Goiás Velho), já foi um lucro doido pra nós. Veio estrada, veio patrola.”

Só uma coisa não mudou para melhor. “O único trem que a gente perdeu de bom e não vai ter nunca mais é a amizade, a confiança. A gente tinha confiança em todo mundo. Ninguém precisava escrever nada. Você podia vender uma boiada. ‘Tal dia eu te pago’, tal dia vinha e pagava. Hoje acabaram os homens de confiança. De primeiro os homens eram mais homens do que hoje.”

A casa, secular, resiste ao tempo %u2014 assim como a cachaça, engarrafada há 18 anos (Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press - 16/6/09
)
A casa, secular, resiste ao tempo %u2014 assim como a cachaça, engarrafada há 18 anos


O velho Viriato continua o mesmo: acorda na escuridão e dorme quando o corpo acusa o cansaço. Cuida da plantação, do gado, da rapadura, dos dois tratores. Uma vez por mês, vai a Planaltina receber a aposentadoria e de vez em quando ao cardiologista. Toma oito comprimidos por dia e conta histórias de antes de Brasília para os visitantes. Sempre há alguém querendo conhecer a memória ancestral da cidade moderna. Viriato de Castro e Maria Clementina tiveram sete filhos, três dos quais já morreram. Têm 13 netos, dois bisnetos e, fechado com rolha de bálsamo, um garrafão de 20 litros de pinga, acondicionada há 18 anos. Há dois outros, enterrados ele não sabe mais onde, há mais de meio século. E histórias, como a do alemão que vivia escondido em grutas e do ouro do Urbano, um tesouro que certo bandeirante escondeu em algum ponto do agora Distrito Federal e que ninguém nunca encontrou. Viriato de Castro é um bem precioso. A gente passa por ele e fica mais rica. 

Trabalho organizado pela arquiteta Lenora Barbo levanta origens de Brasília

Ver o Distrito Federal representado como um pequeno retângulo claro e vazio em meio ao mapa de Goiás sempre incomodou a arquiteta e pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB) Lenora Barbo. A imagem de uma Brasília sem passado, que passou a existir somente em 1960, nunca satisfez a estudiosa. Lenora decidiu debruçar-se sobre o tema, em busca de revelar o cenário de outros tempos no Planalto Central, distantes da modernidade atual. 
Em parceria com o também arquiteto e pesquisador Wilson Vieira Júnior, ela chegou a descobertas inesperadas. Uma das mais interessantes diz respeito ao primeiro mapa do DF, feito quando o “quadradinho” ainda fazia parte da chamada Capitania de Goiás, em 1748. Lenora e Wilson afirmam que o documento, de autoria inicialmente atribuída ao italiano Tosi Colombina, foi, na verdade, elaborado pelo português Ângelo dos Santos Cardoso, escolhido pelo rei Dom João V para fiscalizar a capitania. 

Cardoso traçou o mapa depois de andanças por toda a região. Retratou rios, montanhas e sítios. Naquela época, para surpresa dos pesquisadores, já citava a região de Sobradinho — o que, segundo Lenora, mostra que Planaltina pode não ser a cidade mais antiga do DF. “Sobradinho já existia, não como uma vila, como era Mestre d´Armas, hoje a chamada Planaltina, mas era um sítio, cheio de casas. Os filhos do fazendeiro se casavam e ele ia construindo as moradias”, explicou. 

Na busca pelo conhecimento, Lenora mergulhou no acervo de sebos e bibliotecas. Encontrou, em um cartório em Brasilinha, no Entorno, um mapa raro do DF feito em linho, que, sem cuidados especiais, se deteriorava. No mesmo estado de abandono se encontram as casas coloniais de Planaltina e Sobradinho, imóveis que o trabalho de Lenora e Wilson comprovou terem mais de 200 anos de idade. 

Neve 

As conclusões do estudo vieram da análise de diários de viagem de homens que passaram por essas terras entre os séculos 18 e 19. De próprio punho, eles relatavam o clima no local onde seria futuramente o DF. Falavam também dos mapas que Lenora passou a procurar. Em um dos trechos curiosos de tais documentos, um desses viajantes, Cunha Menezes, em 1778, escreveu um relato sobre o clima frio, quase europeu, por aqui. 


Lenora: "O DF teve a mesma importância que São Paulo, por exemplo. É um local de importância estratégica para o país. Mas ninguém fala disso


“Em uma carta escrita por Menezes, ele dizia claramente que nevou, próximo à região onde hoje fica o Lago Oeste. O viajante passava por aqui vindo do Rio de Janeiro, para assumir como governador da Capitania de Goiás”, afirmou Lenora. 

A pesquisa de Lenora deu origem ao livro Preexistências de Brasília — Reconstruir o território para construir a memória. Um dos capítulos é dedicado aos viajantes que percorreram o que seria o DF, à época ainda deserto. Por aqui, nos séculos passados, estiveram pessoas como o tropeiro José da Costa Diogo, de idade e origem desconhecida, mas que buscava minas de ouro (veja quadro). 



Origem 

Nascida em Goiás, Lenora, desde cedo, aprendeu a gostar de Brasília. Trabalha há quase duas décadas como consultora da Câmara Legislativa, opinando em projetos que envolvem, por exemplo, os recursos hídricos e a geografia do DF. O desejo de desvendar um pouco mais a história da capital veio em 2004, quando a arquiteta ganhou de presente do amigo um livro escrito pelo pai dela, Manoel Demóstenes Barbo, intitulado Estudos sobre a nova capital do Brasil. 



“Eu já tinha visto o livro em casa, quando era pequena. Despertou a vontade de descobrir mais sobre esse passado. Ficava a impressão de que, antes dos anos 1960, Brasília era uma cidade sem história, o que não é verdade”, explicou. 



Lenora nunca havia estudado cartografia. Ao elaborar sua tese de mestrado, dedicou-se à interpretação de mapas dos séculos passados. Ao comparar imagens de satélite, modelos de topografia digital e mapas antigos, a pesquisadora conseguiu mostrar que a Estrada Real, uma importante rota histórica do Brasil, passava por dentro do DF. 

“O DF teve a mesma importância que São Paulo, por exemplo. É um local de importância estratégica para o país. Mas ninguém fala disso. Os viajantes que passaram aqui relatam as dificuldades de transporte, pediam para pernoitar nas fazendas de Sobradinho. Muita gente tentava descobrir como produzir aqui e levar para o litoral.” 

A pesquisa constatou que o trecho brasiliense da Estrada Real seguia o Espigão Mestre, formação geológica que divide as bacias hidrográficas do Tocantins/ Araguaia, Paraná e São Francisco. A área, localizada na parte norte do DF, ainda hoje é dominada por chapadões. A tese de doutorado de Lenora acaba de ser aprovada pela UnB. O projeto pretende estender a pesquisa para regiões do Entorno do DF. “Temos um potencial turístico desperdiçado. Além disso, nós precisamos descobrir coisas em comum com o nosso entorno”, destaca. 

Tanto trabalho serve para chamar a atenção do governo para a preservação do nosso patrimônio histórico e para a exploração turística. É também uma tentativa de incluir no conteúdo de sala de aula, nas lições de história de Brasília e do Brasil, um aprofundamento de conteúdo. “Eu também admiro essa modernidade de Brasília. Mas também temos um passado mais distante. O menino de Planaltina precisa saber que o antepassado dele pode ter contribuído muito antes de Niemeyer chegar”, acredita Lenora. 

O próximo passo da pesquisadora será refazer a viagem pela parte do DF da Estrada Real. Há segmentos que passam pela DF-001 e dentro do Parque Nacional. “Convidei um grupo de ciclistas voluntários para me acompanhar e estamos organizando esse projeto”, conta. Ainda este ano, será criado na UnB o Laboratório de Cartografia Histórica, resultado do trabalho de pesquisadores da história, arquitetura e geografia. Mais uma vitória de quem se importa com as raízes do solo candango. Assim, a história do DF vai renascendo e sendo construída, tudo ao mesmo tempo. 

Historiador 

Nascido em Anápolis, o professor da UnB Paulo Bertran Wirth Chaibub era um dos maiores entusiastas da história de Goiás. Dedicou-se intensamente aos estudos da época do Brasil Colônia na região onde se instalou Brasília. Morreu em 2 de outubro de 2005. Seus trabalhos estão disponíveis gratuitamente na internet, no site www.paulobertran.com.br. 


Conheça os viajantes 

José da Costa Diogo — 1734 

» Tropeiro, parte das margens do Rio São Francisco à procura do ouro das minas dos Goyazes. Ele escreve um diário de viagem — transcrito no livro Viagem pela Estrada Real dos Goyazes —, o relato mais antigo encontrado até agora de viagem pelas terras do DF. 

Tosi Colombina — 1751 

» Francisco Tosi Colombina, engenheiro militar e cartógrafo genovês a serviço da Coroa Portuguesa, foi o autor de mapas e registros de ocupação do Planalto Central em meados do século 18. Propôs construir uma estrada de São Paulo para Cuiabá, passando por Vila Boa, atual Goiás Velho. Em contrapartida à construção, pedia uma sesmaria a cada três léguas de toda a extensão da via e o privilégio de explorar a estrada por um período de 10 anos. O privilégio foi concedido, mas Colombina não construiu a estrada. 

Barão de Mossâmedes — 1773 

» Dom José de Almeida e Vasconcelos de Soveral e Carvalho, governador da Capitania de Goiás, saiu de Lisboa em setembro de 1771, chegando a Vila Boa em julho do ano seguinte para tomar posse no governo de uma das mais extensas capitanias do Brasil setecentista. O Diário de viagem do Barão de Mossâmedes: 1771-1773 é o relato da viagem feita pelo governador da cidade do Rio de Janeiro à capital de Goiás. O ajudante de ordens Tomás de Souza, escriba e geógrafo, fez os dois mapas da capitania. 

Luís Cunha Menezes — 1778 

» O fidalgo português foi o quinto governador e capitão-general da Capitania das Minas de Goiás, de 1778 a 1783. Deixou o manuscrito Jornada que fez Luís da Cunha Menezes da cidade da Bahia para Vila Boa, capital de Goiás, onde chegou em 15 de outubro de 1778. Veio pela estrada salineira da Bahia. 

Cunha Matos — 1823 

» Brigadeiro português, serviu como soldado em São Tomé da África por 19 anos. Escreveu a Corografia Histórica da Província de Minas Gerais e uma resumida Corografia Histórica da Província de Goiás. Veio pelo caminho do correio de Goiás. 

Luiz Cruls — 1892/1894 

» O astrônomo belga chefiou a célebre Missão Cruls em duas expedições. A primeira, de 1892 a 1894, foi quando ele percorreu o Planalto Central para estudar a região e definir a área onde seria construída a futura capital. Define o quadrilátero de 14,4 mil quilômetros quadrados. 

» No segundo semestre de 1894, Cruls voltou para 

concluir alguns estudos e definir a área exata da